A palestra com Léo Mackellene, nesta quinta-feira, 24/9, às 10h da manhã, no Auditório José Albano, do Centro de Humanidades da UFC, no Campus do Benfica, é resultado de uma pesquisa de doutoramento desenvolvida no âmbito da Universidade Federal do Ceará em cotutela com a Universidade de Lisboa, de 2021 a 2026. E analisa como a chegada da cultura letrada no Brasil, mas especificamente na Serra da Ibiapaba, impactou os povos de tradição oral no sentido do desenvolvimento de uma subjetividade subalternizada, da fundação de uma “memória envergonhada” e no estabelecimento de um sentimento de “auto-depreciação”; e de como o ensino de língua portuguesa provocou o que se vem convencionando chamar, nos debates decoloniais, de “ruptura epistemológica”, quando se estabelece, através da língua, uma nova relação do indivíduo com a realidade que o cerca, com a classificação e hierarquização de si e do outro, tendo como parâmetro o grau de inserção dos indivíduos nas práticas sociais da cultura letrada.
A pedagogia colonial foi uma pedagogia do silêncio. Todos os espaços da cultura letrada são espaços de silêncio: a sala de aula, a igreja, a biblioteca, o museu, o teatro etc. Isso amplia o conceito de “letramento”: de uma forma de sistematização do pensamento até a introjeção de valores éticos e estéticos eurocristãos que terminam por estabelecer como modelo de “pessoa bem educada” o indivíduo silencioso, de gestos comedidos, de fala baixa etc.
A memória do silêncio, atualizada a cada missa rezada, a cada lição de leitura e escrita ensinada nas salas de aula, revela-se, assim, como uma prática cultural de longa duração de cujo trejeitos acabam por denotar o grau de assimilação da cultura letrada pelos indígenas, seu lugar social, seu grau de integração na civilização letrada que se estabeleceu a partir das Grandes Invasões europeias no Brasil.
A pesquisa tem implicações nas áreas da linguagem, educação, história, antropologia, sociologia e filosofia e baseou-se em fontes históricas primárias, documentos que remontam ainda ao séc. XVI.
Nas palavras do Prof. Dr. Jorge Ramos do Ó, da Universidade de Lisboa, “O contributo deste trabalho para o avanço da História da Colonização Portuguesa, em geral, e da História da Educação em particular, apresenta-se como inovador tanto no trabalho de deslocamento conceptual quanto dos materiais empíricos sobre que se debruça. Seu plano teórico e suas opções metodológicas se sustentam com muita segurança em séries de fontes pertinentes, pouco conhecidas da historiografia tradicional e muitas são mesmo inéditas, colhidas fundamentalmente na Torre do Tombo e na Biblioteca Nacional de Lisboa, além do Instituto Literário Viçosense e da lendário Biblioteca dos Pinho. Quero terminar sublinhando o carácter excepcional deste trabalho. Nele se projecta de modo muito impressivo uma tese de doutoramento que, estou certo, marcará de forma singular os estudos nos domínios disciplinares em que se insere”.
O convite para a palestra vem no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal do Ceará, através da Profa. Dra. Elis Teixeira, e tem como público alvo todos os interessados no ensino de língua portuguesa, literatura, nas questões linguísticas e em como a língua pode se constituir mais do que como meio de comunicação, como sistema de classificação da realidade, contrastando, portanto, entre si, pela oralidade e pela escrita, duas formas de se guardar memória, de lidar com o mundo, com o outro e consigo mesmo. O trabalho transita ainda pela psicologia, antropologia, sociologia e história.
SERVIÇO:
Palestra com Léo Mackellene. Quinta-feira, 24/9, às 10h, no Auditório José Albano, do Centro de Humanidades da UFC, no Benfica. Atividade aberta ao público em geral.

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