Um dos grandes nomes da música do Ceará para o Brasil, o cantor e compositor Tiago Araripe, filho do Crato, há oito anos radicado em Portugal, retornou ao Ceará para celebrar seus 75 anos, tendo realizado shows especiais em Fortaleza (na última quarta-feira, 2 de setembro, no Banco do Nordeste Cultural), no Crato (na quinta-feira, 3 de setembro, na Vila da Música, no bairro Belmonte, a antiga e eterna Solibel, do Padre Ágio), e em Juazeiro do Norte (sexta-feira, 4 de setembro, no Teatro Sesc Patativa do Assaré).
Cada um dos shows - e cada uma das demais atividades, como a Roda de Conversa reaizada na Escola Virgílio Távora e o lançamento do livro "Repertório Homeopoético", de Tiago Araripe, ambas na sexta-feira - foi marcado por muita emoção. Em diversos momentos, Tiago foi às lágrimas, ao apresentar algumas canções, agradecer a presença de tantos amigos, amigas, conterrâneos, companheiros de infância, adolescência, de sonho e de som, na capital e especialmente no Cariri.
Foram ao todo seis oportunidades para o público cearense reencontrar Tiago Araripe, cantor e compositor de vasta história na produção musical, incluindo parcerias com Zeca Baleiro, Décio Pignatari e José Luiz Penna, entre vários outros, além de trabalhos em disco e palco com Tom Zé.
O repertório dos shows passou por canções de diversas fases da carreira de Tiago, incluindo composições saídas do forno recentemente, no novo disco, “Balaio de Viagens”. Foram oportunidades especialíssima para o público, de desfrutar um apanhado geral da produção autoral de Tiago Araripe, diversificada, multifacetada e ao mesmo tempo cheia de identidade e personalidade, inconfundível.
| Tiago Araripe e Dodora Guimarães: vela soprada no show comemorativo de 75 anos de Tiago, na quarta, 2/9, no Banco do Nordeste Cultural Fortaleza. Ao fundo, a contrabaixistra Dândara Marquês |
As apresentações marcaram o lançamento do disco “Balaio de Viagens” e do livro “Repertório Homeopoético - poemas pílulas e contos-gotas”, ambos de Tiago Araripe, novas obras que se somam à celebração destes 75 anos do artista. O novo disco conta com capa de Emerson Monteiro e com canções em parceria com Assis Lima, Rosemberg Cariry e Pachelly Jamacaru, reforçando as ligações essenciais com a região do Cariri.
Já o novo livro é definido pela escritora portuguesa Patrícia Alexandre Dias como uma "farmácia de delicada potência". Reúne textos breves que atuam no leitor como doses cirúrgicas de lirismo, reflexão e humor refinado. O livro se afasta de linguagens herméticas para abraçar o despojamento, flertando com a concisão do haicai, o impacto do aforismo e a cadência da canção.
No show em Fortaleza, Dodora e Rosemberg
O show realizado na quarta-feira, 2 de setembro, em Fortaleza, contou com Tiago Araripe e trio, com Caio Castelo (guitarra e programações, além da direção musical), Dândara Marquês no contrabaixo e Ígor Ribeiro na bateria, bem como com as participações especialíssimas de Pedro Rogério (filho de Rodger Rogério e Téti) e Luciano Raulino.
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| Caio Castelo, arranjador e diretor musical dos shows |
Na plateia do show em Fortaleza, Dodora Guimarães, artista visual, curadora, pesquisadora, produtora cultural, referência na cena cearenses, viúva de Sérvulo Esmeraldo, a cuja obra se dedica, mantendo viva a memória de Sérvulo, em ações como a exposição que já foi vista por mais de 100 mil pessoas na Caixa Cultural Recife.
Também presente Rosemberg Cariry, parceiro de Tiago em "Tudo que meus olhos não viram", canção destacada por Tiago em todos os shows, em Fortaleza, Crato e Juazeiro, sempre com a abertura da apresentação sendo feita pelo clipe dessa música, em homenagem a Cego Aderaldo, vídeo já disponível no YouTube.
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| Luciano Raulino e Caio Castelo |
"Passo filmes mudos que a todos tanto dizem Enquanto canto repentes do meu sertão Eu sou desse tipo de gente que não desiste De no mundo buscar sempre ter a própria visão."
Tiago também disparou aviõezinhos de papel, com letras das músicas, para o público do show em Fortaleza, que contou com muitos personagens da cena cultural cearense, integrantes da família Araripe, como o irmão de Tiago, jornalista, Flamínio, e fãs que levaram LPs "Cabelos de Sansão" para autografar. Tiago recebeu o público e "canetou" também o CD "Baião de Nós" e o livro "Repertório Homeopoético", com muitos e entusiasmados cumprimentos. Vários reencontros, esperados por muitos anos. Como brincou Tiago, durante o show: "O Oceano Atlântico é uma ponte entre Portugal e o Ceará".
Os shows no Cariri: Vila da Música e Teatro Sesc Patativa do Assaré
Nos shows de quinta-feira, na Vila da Música, no Crato, e de sexta-feira, no Teatro Sesc Patativa do Assaré, em Juazeiro do Norte, Tiago Araripe recebeu como convidados especialíssimos Abidoral Jamacaru e Pachelly Jamacaru e dividiu o palco, em formato de dueto, com Caio Castelo, cantor, compositor, multi-instrumentista, arranjador, produtor musical e proprietário do estúdio Orelha, em Fortaleza, onde já produziu dezenas de discos e inúmeros singles.
Caio é também parceiro de composição de Tiago Araripe e responsável por arranjos de gravações de Tiago Araripe com outros artistas e pela direção musical dos shows de Tiago no Ceará, além de tocar guitarra, teclado, sintetizador e outros instrumentos, no palco, ao lado do cantor e compositor que está celebrando 75 anos.
Abidoral, Caio, Tiago, Pachelly e J. Flavio, no show no Crato
A Vila da Música Padre Ágio Moreira é um equipamento cultural mantido atualmente pelo Governo do Estado do Ceará, a partir da escola fundada originalmente pelo Padre Ágio, da Sociedade Lírica do Belmonte. Uma escola de música de concerto que há décadas vem oportunizando a filhos de trabalhadores e agriculturores acesso ao ensino de música de concerto, inclusive aos instrumentos, em uma experiência pedagógica que se aproxima dos dez anos, nesta nova fase. A Vila faz diferença na vida de jovens que contam também com a oportunidade de receber shows como o de Tiago Araripe e convidados, realizado na quinta-feira, 3 de setembro, no mesmo auditório que já recebeu artistas como Egberto Gismonti e Orquestra de Cordas do Paraná, Claudio Nucci e o próprio Tiago, em 2018.
Roda de Conversa em escola e lançamento do livro no ICC
A temporada de Tiago Araripe no Cariri também contou com uma Roda de Conversa, na sexta-feira, 4 de setembro, às 10h, na Escola Adauto Bezerra, no bairro Seminário, no Crato, momento muito marcante, com dezenas de estudantes de regência e de produção cutural, incluindo discentes da escola vizinha, a Adauto Bezerra. Professores das escolas, como José Almeida, Diego e Iris, também participaram da Roda de Conversa, que contou com Tiago Araripe, Abidoral Jamacaru, Maria Carvalho (diretora da Vila da Música, no Crato), Baden Powell (produtor cultural, pesquisador da história recente do Cariri, programador da Rádio Universitária da Universidade Regional do Cariri, a Urca).
A Roda de Conversa foi uma iniciativa em parceria entre o artista, a escola e a Vila da Música. “Tiago Araripe, 75 Anos: do Crato ao Recife, de SP a Portugal, de Tom Zé a Zeca Baleiro, do Udigrudi à Globo, do Vinil às Plataformas”. Outros músicos do Cariri participarão da Roda de Conversa.
Também na noite de sexta-feira aconteceu evento de lançamento do livro “Repertório Homeopoético”, de Tiago, na sede do Instituto Cultural do Cariri, o ICC, na Praça Juarez, 950, no Crato. Com a presença de colegas de geração, foi mais um momento de reencontro, lembranças e confraternização.
Mais sobre Tiago Araripe: do Crato ao Recife, de SP a Portugal
Nos anos 1970, Tiago Araripe trocou o Crato natal por Recife, de onde, após desenvolver os primeiros projetos musicais "udigrudi" com o grupo Nuvem 33, partiu para a capital paulista, para encontrar o compositor baiano Tom Zé. Com ele lançou em 1974 o compacto com "Conto de Fraldas" (de Tom Zé) e "Teu Coração Bate, o Meu Apanha" (de Tiago Araripe e Décio Pignatari). Perenizadas pelas plataformas de streaming, as duas canções ultrapassaram barreiras de tempo/espaço e chegaram a novos públicos. No Spotify, a primeira atingiu mais de 320 mil plays, enquanto a segunda superou a marca das 218 mil audições.
Tiago participou do Festival Abertura, da TV Globo, em 1975, com o tango "Drácula", também parceria com Décio Pignatari, e integrou o grupo Papa Poluição, que dividiu com Belchior uma temporada de shows no circuito Sesc. Também compôs trilhas para filmes como o premiado "Sargento Getúlio", do cineasta caririense Hermano Penna.
Em 1982, lançou pelo selo Lira Paulistana, em meio ao movimento conhecido por "vanguarda paulista", o clássico LP "Cabelos de Sansão", redescoberto e relançado nacionalmente em CD por Zeca Baleiro, por meio do selo Saravá Discos, em 2008. Em 2022 o disco completou 40 anos.
Em 2013, com a participação e o apoio de Baleiro, Tiago lançou "Baião de Nós", seu segundo disco de composições inéditas. Em 2024, condensando a experiência do autor vivendo fora do País, morando em uma pequena vila no interior de Portugal, lançou "Terramarear", aportando nos cais dos dois lados do Atlântico, para dar continuidade a essa história. Todos a bordo!
O novo disco - Quantas viagens cabem em um balaio?
Cada canção é uma partida; uma ideia que, ao ganhar asas, deixa de pertencer ao chão para se tornar propriedade do vento. Reuni-las neste Balaio de Viagens não é um ato de arrumação, mas de soltura: é ver pássaros, antes dispersos, recuperarem o sentido do bando e a nitidez do percurso.
Este álbum é, a um só tempo, ajuntamento e plataforma de voo. Algumas destas canções já habitam o ar há meses ou anos; outras, como "Do Fado ao Tango", "Tudo Que Meus Olhos Não Viram" e "Chuva Meteórica", acabam de inaugurar o seu destino inédito. Lado a lado, elas deixam de ser fragmentos para se tornarem horizonte.
Se o céu nem sempre é de brigadeiro, é da natureza da música — esse bicho teimoso — voar sob qualquer circunstância. Nem todas chegarão ao porto planejado, mas, por permanecerem em suspensão, podem alcançar ouvidos futuros e pousar em corações que nem sabiam que as esperavam.
Nesta viagem, as surpresas são a única bagagem obrigatória. Por isso, não procure os cintos de segurança: aqui, o risco é o próprio prazer do voo. Se algum sinal luminoso se acender, o critério de observá-lo será inteiramente seu. Não haverá comissária de bordo a ditar regras, apenas a música a sugerir caminhos.
Boa viagem!

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