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Com instrumental autoral e melódico, Érico França fez um belo show no Cineteatro São Luiz, nesta quarta, 28/1, pelo projeto "Dentro do Som", ao lado de grandes músicos da cena cearense

 


Um show instrumental autoral, chamando atenção pelas composições melódicas e pela fluidez dos arranjos, privilegiando o coletivo sem deixar de abrir espaço para a improvisação e o brilho de cada um dos músicos. Assim foi a apresentação de Érico França no lindo Cineteatro São Luiz, na noite desta quarta-feira, 28/1 - aliás, dia do 82o. aniversário do mestre Rodger Rogério, do Pessoal do Ceará, compositor, cantor, ator, físico, pai, avô, bisavô e enorme ser humano, que jamais imaginou que um dia iria parar na capa da revista Cahiers du Cinema, por sua brilhante atuação em "Bacurau".

Formado em guitarra pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Érico escolheu os excelentes músicos cearenses Ednar Pinho (contrabaixo), Heriberto Porto (convidado especial, na flauta) e Bruno Vasconcelos (bateria), além do carioca radicado em Fortaleza Gabriel Feszti (teclado), para com ele dividir o palco do Cineteatro São Luiz, em noite do projeto "Dentro do Som", idealizado e implementado por nós, para esse equipamento cultural público, mantido pela Secretaria da Cultural do Ceará, em parceria com o Instituto Dragão do Mar. Tendo as famosas cadeiras vermelhas como fundo-palco e compondo um belíssimo cenário, no cinema de rua inaugurado em 1958.

Um formato intimista, em que o público também fica sobre o palco, bem perto do artista, da belíssima iluminação de Guilherme, Biano e equipe do Cineteatro São Luiz, literalmente dentro do som feito pelos também craques Sandro Levi (PA), Luiz Carlos (monitor) e equipe. Tudo sob a coordenação de Nerfertith Andrade e José Alves Netto, diretor do cineteatro, ambos presentes à apresentação desta quarta-feira, que teve ingressos esgotados e demanda de entradas remanescentes, com ouvintes aguardando lugares extras, sem arredar pé, fazendo questão de aguardar até conseguir lugar no show.


E todos conseguiram! Felizmente! Porque ninguém quereria perder uma apresentação tão fluida, equilibrada, musical, serena e intensa a um só tempo, tão natural quanto bela, movida principalmente pelas composições inspiradas de Érico e pela concepção do show, com todos se ajudando e principalmente ajudando a música. Tocando, de fato, juntos, atentos e sensíveis aos movimentos e caminhos improvisados um do outro, sob a regência da guitarra semiacústica de Érico, na grande maioria dos temas, e de sua stratocaster, em um jazz marcado pelo bebop que cede lugar a um blues, na faixa de melodia mais "troncha" da noite, marcada por composições de melodias naturais, comunicativas, convidativas ao público.

Música instrumental que tanto traz ingredientes para agradar quem procura pela improvisação, pelo risco, pela surpresa, quanto quem deseja um show acessível para começar a enveredar com mais afinco e frequência por esse multiverso musical.

O som de Érico França é assim: fácil de se gostar. Verdadeiro, honesto, direto, interessante. Desde o início, com dois belos baiões, temas puxados pela guitarra. "Soltando pipa", homenagem a Pipa-RN, cidade onde Érico vive, mencionada diversas vezes ao longo do show, e "Mensagem pro Heraldo", relembrando a guitarra e a viola de Heraldo do Monte, mestre que chegou a tocar no Festival Jazz & Blues, em Guaramiranga, nos anos 2000.

Ou na singeleza da "Valsa para Moniquinha", com Gabriel Geszti na sanfona, em um momento diferente para quem se acostumou a aplaudir sua performance ao piano. "Uma música q fiz pra minha mãezinha. Sempre que tenho oportunidade de tocar pra ela, eu toco. E fico muito feliz", contou, com a alegria de ter a mãe presente ao show, realizado com Silêda Franklin na produção de Érico, uma das maiores guerreiras por melhorias na política cultural do Ceará, durante anos e anos de luta na direção do Theatro José de Alencar, ao lado de Izabel Gurgel, escritora, jornalista, gestora cultural, também atenta ao show, nas cadeiras sobre o palco do São Luiz.

"Os anjos da falésia" chega como um xote alegre e convidativo, composto a partir de uma história terrível. "Uma família da Pipa faleceu num acidente. Papai, mamãe, bebê, cachorro... A Pipa ficou bem abalada. Eu fiquei bem triste e fiz essa música, transformando a dor em arte. Para eles: Hugo, Stela, Brisa e Sol. O nome do bebezinho era Sol", contou Érico.

E veio o momento mais belo do show, costurado entre os improvisos de Érico, Gabriel, Ednar, Bruno. "Vou convidar um titã: Heriberto Porto. Um herói com a gente aqui no palco! A gente assistiu muito a Marimbanda, a gente é fã da Marimbanda", ressaltou o guitarrista.

"A gente tem q fazer uma reverência, porque quando a gente tava nascendo o Beto Porto já tava abrindo os caminhos. Pra agente estar aqui hj tem muito trabalho dele e de tantos outros grandes mestres", destacou, antes de tocar uma belíssima balada, dedicada a seu pai e enriquecida sobremaneira pela flauta e pela improvisação de Heriberto. Composição mais que inspirada, fazendo lembras as criações clássicas do saudoso mestre Luizinho Duarte, da Marimbanda, como "Pra te dizer algo assim", costurada também pela flauta de Heriberto. Beleza, inspiração, sensibilidade. Muito, muito amor, no palco do São Luiz, percebido, assimilado, sentido pelo público.

Após muitos aplausos, o mencionado jazz bebop/hardbop, tocado com a Strato e dedicado ao avô. "Uma música divertida de tocar. Uma música que fiz pro meu avô. O vovô, ele sofreu os horrores da ditadura aqui no Brasil. Uma vez que eu sentia raiva de alguma coisas, eu fiz essa música pra ele. Ela bota essas coisas pra fora", revelou Érico França. "Os tempos que a gente vive, tão difíceis. Inclusive cada nota que tem soado aqui eu queria dedicar pra Palestina , pras meninas que sofreram feminicídio, ao cão Orelha, covardemente assassinado. E é isso: esse é meu repúdio também a todas essas coisas horríveis", fez questão de ressaltar, antes de encerrar o show com mais uma composição, esta dedicada à companheira, Rafaela, também presente.

O caderno sentimental musical de composições de Érico, ao lado da musicalidade fluida e comunicativa do artista e de seus colegas convidados, fez o público pedir bis. Não teve. Ficou a vontade de um reencontro em breve, em um próximo show. Que maravilha ver um show instrumental autoral lotado, em pleno meio de semana, em janeiro, época de pré-carnaval e em dias de muita chuva em Fortaleza. Que venham muitos mais!




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