O I Ponte Instrumental Nordeste - PIN chega ao fim neste sábado, com os shows do guitarrista Luciano Magno, de Recife, e dos cavaquinistas Luiz José, de Fortaleza, e Pablo Dias, de Belo Horizonte. teve início na quinta-feira, 19/2, lotando o Banco do Nordeste Cultural, no Centro de Fortaleza, com os shows de Luccas Martins (ES) e Siará Quarteto (CE) e de Caetano Brasil (MG) e Orquestra Cabulosa (CE). Nesta sexta, o Duo Selestrial (Cariri, CE) e Esdras Nogueira e grupo (DF) foram muito aplaudidos. Tudo com entrada franca e ingressos no Outgo
Nesta sexta-feira, 20/2, a segunda noite do novo festival Ponte Instrumental Nordeste - PIN, no Banco do Nordeste Cultural, no Centro de Fortaleza, foi mais uma vez de casa cheia. Sem sintomas de cansaço pós carnaval, o público mais uma vez compareceu em grande número, assim como na noite anterior, estreia do evento. Fabrício da Rocha e Júnior Crato, integrantes do duo Selestrial, e Esdras Nogueira e super grupo foram as atrações da segunda noite de festival, evento que também promoveu duas tardes de oficinas/masterclasses, na quinta e na sexta.
Fabrício da Rocha, agora residindo em Jericoacoara, e Júnior Crato, que segue morando no Cariri, foram os primeiros a subir ao palco nesta sexta, na primeira apresentação do show do projeto Selestrial após Hermeto Pascoal, homenageado, ter-se encantado. É absolutamente impressionante a maestria de Fabricio e Júnior em seus instrumentos, com o violonista arrebatando o público pelo violão bem percussivo, pelos acordes intrincados e diferentes, pelo fraseado veloz e criativo, pelas muitas passagens rítmicas que dialogam com toda a complexidade e a fluidez da obra de Hermeto. A flauta de Júnior Crato segue pelo mesmo caminho de complexidade e beleza, de técnica em função da musicalidade e da conquista do ouvinte, como que a convidá-lo a um banquete de belezas, pinçadas da obra do Bruxo, para o mundo próprio da dupla, com muita personalidade nos arranjos e adaptações, caminhando por entre novas possibilidades.
Do samba inicial ao clássico "Forró Brasil" em uma recriação que vai do muito rápido ao cadenciado, o dueto conquista a plateia logo de saída. "O principal desafio foi manter a energia da música do Hermento", compartilha Júnior Crato, citando que a dupla precisou se esmerar para alcançar essa intensidade, essa expressividade, nessa nova formação. Tarefa exemplificada no contagiante "Chorinho pra ele", dedicada por Hermeto a Sivuca, com Júnior destacando o desafio do alagoano ao paraibano, com o final da música em fusas. "É pra pessoa tocar o mais rápido que conseguir".
No show, Júnior Crato "se invocou" ao esquecer a introdução composta por Fabrício para outro clássico, "O ovo". Com aplausos do público diante da sinceridade e da atitude humanizada, longe da frieza da IA, Fabrício e Júnior optaram por adiantar "Fica mal com Deus" (também em uma recriação bem intensa) e voltaram ao tema um pouco depois no show, sem a introdução, indo direto ao ponto, "em uma versão improvisada, como um ensaio aberto". E ganhando muitas palmas!
"Montreux", tema escrito por Hermeto na manhã de sua apresentação no famoso festival e apresentada já à noite, ganhou uma ilustração com a exibição da fala do Bruxo ao público na Suíça: "É uma valsa bem lenta e bem bonita", frisou Júnior. "Se fizerem barulho, eu paro. Já vou avisando", disse Hermeto, no registro da apresentação no encontro internacional que segue até hoje como referência para a música jazz.
"Aline no frevo", composta por Hermeto para sua última companheira, "um frevo nervoso, bem a cara do Hermeto mesmo", e "Taiane", para uma companheira anterior, estiveram entre as mais aplaudidas da noite. "Tomamos a liberdade de reconstruir 'Taiane', com um arranjo novo, com ecos de Villa-Lobos encontrados pelo Fabrício", ressaltou Júnior. O "Forró em Santo André", 'muito louco, como todas do Hermeto, como todas que a gente tocou, mas muito bom de tocar", e a "Suite Norte, Sul, Leste e Oeste" foram outros destaques, antes do pedido do público para um bis, que veio com o "Bebê". "Nós somos fáceis", brincaram Fabrício e Júnior, antes de mais aplausos, por um show que demonstra a maturidade do projeto Selestrial e o altíssimo nível alcançado pelo dueto, não somente quanto à técnica exuberante, mas também e principalmente para um projeto que faz sentido, se justifica, agrega novidades e uma forma diferente de mergulhar na obra do homenageado, ressaltando a imensa criatividade, a forte sensibilidade e o amor da dupla de virtuosos por essa música, em que ingressam para emergir com outras cores, outras leituras, brindando o público. Vida longa ao Selestrial!
Esdras Nogueira: "Transa" instrumental
No segundo show da noite, Esdras Nogueira, com seu saxofone barítono, e um super grupo, com destaque para o aniversariante do dia, o guitarrista Marcus Moraes, levaram ao palco do Banco do Nordeste Cultural sua aclamada recriação para o disco "Transa", de Caetano, em um projeto lançado em 2019 e que propõe uma visão instrumental de um álbum de um compositor conhecido pela força de suas letras. Ressaltando, então, a musicalidade de Caetano e de suas composições no disco lançado em 1972, tempos de exílio londrino e de muita luta contra a ditadura civil militar empresarial no Brasil.
Que maravilha ver e ouvir a coesão do grupo capitaneado por Esdras, também produtor cultural, cozinheiro e responsável por um festival de jazz em Brasília, ao lado de Mariana, sua produtora e companheira! E com Thanise Silva brilhando muito na flauta, Vavá Afiouni com muito suingue e musicalidade no contrabaixo, de papel essencial para o show, e Thiago Totem na bateria.
Com muito apuro e procurando novos caminhos melódicos, enfatizando a interação dos músicos, os arranjos específicos para o grupo, o bloco do show "Transe" vai à rua a partir do suingue de "You don´t know me", construindo camadas a partir do tema e convidando o público a entrar no clima - e na música, nesse exercício de recriação, redescoberta, reconstrução. Revelando outras possibilidades. A força de "Nine out of ten", na curta melodia e na intensidade rítmica, é também explorada pelo grupo para mostrar seu som próprio, sua identidade, convidando a plateia a entrar na roda, assim como em "Triste Bahia" e "It´s a long way".
"Mora na filosofia" chega como o único tema não composto por Caetano, e sim por Monsueto Menezes e Arnaldo Passos. Ganha uma bela recriação! "Neolithic man" e "Nostalgia (That´s what rock ´n´ roll is all about) completam os temas do disco, antes de Esdras e grupo mostrarem músicas de outros projetos, agradecerem pela presença do público e convidarem a plateia a seguir acompanhando o trabalho de cada músico por meio das redes, após um show que se destaca sobretudo pelos arranjos, trazendo outros matizes e caminhos melódicos e rítmicos, e pela prática de conjunto, pela interação entre os músicos.
O saxofonista que por duas décadas integrou o Móveis Colonias de Acaju também ministrou no Festival PIN uma oficina sobre circulação de shows, nacional e internacional, enfatizando o papel dos festivais brasileiros e internacionais, como a Womex, e a importância de cada produtor/artista estar preparado, com um bom material e com presença nesses eventos, para a busca de outros espaços para shows, de outras oportunidades, para a construção de uma rede de contatos. O PIN dá sua contribuição, ao unir músicos de cinco estados, nesta primeira edição do evento.
Mais sobre o PIN: um novo festival
No mapa da música instrumental brasileira, um novo ponto de conexão, com Fortaleza como o epicentro em que se cruzam as rotas sonoras do País. No rescaldo do Carnaval, quando os tambores se calam e a cidade respira, surge um novo ritmo. Não é o fim da festa, mas o início de outro encontro — mais íntimo, mais profundo. O PIN se ergue como, mais que um festival, um ponto de encontro no mapa musical do Brasil.
PIN é ponte. É o abraço entre o regional e o nacional, entre o que se cultiva nos interiores e o que ecoa nos centros. É o lugar em que guitarras, violões, sopros e percussões conversam sem pressa, criando um diálogo que ultrapassa fronteiras geográficas e estéticas. Aqui, o instrumental não é apenas gênero — é linguagem viva, em constante transformação.
Cada noite é uma travessia. Artistas que chegam de longe encontram raízes locais; sons do cerrado mineiro se fundem ao balanço do litoral; o experimentalismo do Planalto Central dança com a guitarra que já foi baiana e hoje é universal. O Ceará, com sua tradição musical forte e diversa, funciona como anfitrião e catalisador desses encontros.
“Mais do que apresentar shows, o PIN propõe experiências sonoras únicas. É a celebração do momento em que artistas se encontram pela primeira vez no palco, da descoberta de afinações imprevistas, da música que nasce no agora e nunca mais se repetirá”, destaca Tauí Castro, curador e coordenador de produção do projeto.
“É a beleza do efêmero, do que só acontece quando se cria espaço para o novo. É a busca de um lugar na memória afetiva de quem crê na música como território de encontro. E no Nordeste como farol criativo do Brasil”, ressalta.
Serviço: I Ponte Instrumental Nordeste - PIN. Neste sábado, 21 de fevereiro, a partir das 19h, shows de Luciano Magno (PE) e de Luiz José (CE) com Pablo Dias (MG). No Banco do Nordeste Cultural (Rua Conde D´Eu, 560, Centro). Entrada franca. Ingressos disponíveis na plataforma Outgo. Informações: instagram.com/festival.pin/
![]() |
| Luciano Magno |
![]() |
| Luiz José e Pablo Dias |


Postar um comentário